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QUANTOS SERTÕES NOS HABITAM?

Seria pouco dizer que o melhor espetáculo em cartaz no Rio de Janeiro é o Grande Sertão Veredas, versão de Bia Lessa para o monumental romance de Guimarães Rosa, instalado no foyer do Centro Cultural Banco do Brasil, espetáculo-instalacão como define a encenadora. 

Os sertões profundos do Guimarães se juntam aos da Bia e invadem a cidade com suas jagunçadas de tantas faces, impossível não lembrar na jagunçada carioca que divide a cidade em territórios e atiram para todo lado. O que nos leva a pensar, será o Brasil arcaico do Guimarães Rosa que vem do passado e invade o RJ de agora, ou é o RJ de hoje que regride séculos na sua violência e estupidez, em tocaias, tiroteios, execuções, emboscadas, que nos remetem ao pior do Brasil? Pensamos pessimistas: será esse o verdadeiro Brasil e assim será sempre, um país cujo destino é a brutalidade, a incivilidade?
É aí que aparecem a poesia e a arte de Bia Lessa e Guimarães Rosa para nos resgatar, e mostrar que para um país que gerou essas sensibilidades será possível tudo, até forjar uma nova Roma, uma nova civilização, como cogitava o antropólogo Darcy Ribeiro.

Nos sertões da Bia será preciso usar fones de ouvido para escutar os atores, mesmo que eles estejam a um braço de você, porque são gritos surdos, torturas do corpo e da alma, na sonoplastia impregnada de vozes, sinos, passarinhos, e melodias poderosas do Egberto Gismonti, outro arquiteto de sensibilidade singular, na construção dessa monumental arquitetura de sons, palavras e gestos, que a sensibilidade dos atores vai, aos poucos, nos revelando na poesia de gritos reprimidos, nos corações devastados de paixão, do amor impossível dos jagunços Riobaldo e Reinado/Diadorim.

Mas não se trata de um amor homossexual, este é o drama de Riobaldo, apaixonado profundamente por Diadorim, o que provoca nele sentimentos contraditórios e de repressão, já que a paixão homossexual era uma relação impossível de ser aceita no meio da jagunçada. Só depois da morte do amigo, quando o corpo é despido e lavado, é que ele descobre que se tratava de uma mulher e só aí ele diz que a ama.

E vamos vendo os sertões se materializando em nossa frente, onde as palavras do Guimarães se revelam nas imagens da Bia, na força dos atores, um conjunto harmonioso, que traz Caio Blat,  Luiza Arraes, Luiza Lemmertz, Clara Lessa, Daniel Passi, Elias de Castro, Leo Miggiorin, Leon Goes e Lucas Oranmian.

Um presente nesse sertão de insensibilidade a que os homens públicos nos condenam.

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